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quinta-feira, 21 de março de 2013

DOCUMENTO 103, DA COMISSÃO EPISCOPAL PARA A JUVENTUDE, DA CNBB




DOCUMENTO 103, DA COMISSÃO EPISCOPAL PARA A JUVENTUDE, DA CNBB
UMA PRIMEIRA LEITURA

Hilário Dick


1.  Em tempos de mudanças de paradigmas, rodeados de inseguranças por vários lados, em termos de Igreja Católica, a reação é de “coisas feitas”, de “respostas curtas e claras”, isto é, de Catecismos e de Direitos Canônicos: ordens, diretrizes e decisões vindas “de cima”, de quem se acha incumbido de autoridade, pondo luz nas escuridões. Em certa proporção, é também o caso de Pastoral Juvenil no Brasil – Identidade e Horizontes[1]. Embora a apresentação seja do Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude, D. Eduardo Pinheiro da Silva e apesar de se relatar, na Introdução, o processo de gestação do Documento (p. 14), não fica clara a autoria. Em todo o caso, mais do que “juvenil”, respeitando uma caminhada de 40 anos onde o “protagonismo juvenil conviveu com o “Setor Juventude”, ou “povo de Deus”, é um documento  episcopal.
2. É um documento que, na conjuntura eclesial e pastoral que se vive, se esperava.  Até melhor do que se esperava. Não se erra, contudo, se se diz que é um documento “ligeiro” (sem muita preocupação com exatidões)[2] e um documento que não consegue esconder preconceitos (especialmente com tudo que se relaciona com “Pastoral da Juventude”).  O que vale é a “massa” e não o “povo”; as exigências que se tem com algumas “experiências” não valem para as outras. O que importa é uma estranha unidade onde todos são ou devem ser a mesma coisa, contanto que não se organizem.  Exige-se uma “unidade” que não se exige em nenhum outro lugar, nem nas instâncias episcopais, não se dando conta que o jovem que pensa não gosta do “faz de conta”. Afirmar que uma coisa é certa: a unidade é um valor cada vez mais aceito pela juventude não significa que para ela (a juventude) vale uma unidade do “faz de conta”.  Não vale o protagonismo juvenil que precisa fazer e pensar o que se manda... Sem deixar de ter sentido, até o protagonismo dito é uma afirmação superficial e interesseira. É verdade que com o jovem que não pensa e não cultiva sua autonomia ou, até, sua autoestima, pode-se fazer muita coisa porque não incomoda, mas dizer que essa é a realidade, é falso.  Os referenciais que valem para o documento 103 é o Documento 85 da CNBB (que, mais adiante, é relativizado)[3], a proposta cativante (é assim que o documento fala) da Jornada Mundial da Juventude no Brasil (chamada de novo tempo para a evangelização da juventude)[4], a criação da Comissão Episcopal da Pastoral para a Juventude, a proposta de revitalização da Pastora Juvenil lançada pelo CELAM (não se nomeia, aqui,  Civilización del Amor: Proyecto y Misión) e a decisão por uma nova Campanha da Fraternidade voltada para os jovens (p. 16).
3. Usa-se, pela primeira vez, em documentos da Igreja Católica Brasileira, o conceito Pastoral Juvenil  (termo que só se usava em espanhol)  e não Pastoral da Juventude. É muito mais do que uma briga de conceitos; é uma briga e uma tentativa de imposição  de um modelo de Igreja e de  evangelização da juventude, valendo-se não de debates e reflexões, mas de autoridade, julgando que seria uma forma de fugir de conflitos. O documento 103 pretende esclarecer e potencializar os principais elementos organizativos da Pastoral Juvenil na atual conjuntura eclesial, a fim de iluminar, favorecer e impulsionar a evangelização da juventude no Brasil, junto às diversas expressões juvenis, à luz da história do trabalho  da Igreja neste campo[5], das Diretrizes Gerais da Igreja no Brasil, do documento 85 da CNBB, do contexto da Campanha da Fraternidade e da Jornada Mundial da Juventude em 2013.  Este é um dos leitmotiv do Documento que não quer refazer as reflexões tão bem descritas  no Documento Desafios e Perspectivas Pastorais. Quer falar da “máquina” e não da “alma”; mostrar a todos como devem comportar-se, não pensando em pedagogia, mas em coisas certas e erradas. Volta-se (sem dúvida) a uma Pastoral para a Juventude, escanteando e criminalizando uma Pastoral da Juventude. Quer-se voltar, estranhamente, a uma Ação Católica Geral.
4. A perspectiva histórica é louvável, apesar de algumas incongruências. A maior delas é ouvir, de novo, que a Igreja ama a juventude, que a juventude mora no coração da Igreja e outras frases bonitas que começam a cansar frente às esquizofrenias e contradições que vão aparecendo de modo assustador. Se a juventude está no coração da Igreja por que esta, a juventude, só tem chance de aparecer com certo protagonismo, depois de 1930 anos, com a Ação Católica, mas de modo mais decidido na década de 1950? Outra incongruência é o documento não dizer claramente que a Ação Católica Especializada foi extinta (morta) pela Igreja, algo semelhante ao que as Pastorais da Juventude e outras Pastorais ainda estão vivendo neste momento? Recorde-se o que se fazia nos anos de 1964, que precederam a extinção da Ação Católica Especializada...  A retomada histórica não deixa de ter seu valor, embora fique clara uma postura parcial. Valha, como exemplo, a maneira como se fala do Caderno de Estudos PJ e Movimentos (p. 31)[6] ou à importância que se dá junto aos dependentes químicos, sem se referir a toda uma coleção de outros títulos que apareceu nesta coleção de “Cadernos” ou outros aspectos desenvolvidos na evangelização da juventude. É simplória a leitura que se faz dos anos 90, onde – segundo o texto - “surge uma nova geração de jovens” (p. 31).  O ano de 1989 foi muito mais do que o surgimento de uma “nova geração”.
5. Referimo-nos a isso por causa da forma como o documento desenvolve a apresentação das Pastorais de Juventude (p. 34-46) e a descrição que faz dos Movimentos Juvenis, Novas Comunidades e Carismas na Igreja. 15 (quinze) Movimentos são descritos em três páginas; 23 Novas Comunidades em duas páginas e 8 Congregações Religiosas com as quais há contato, em duas páginas. Se para as Pastorais há um esquema de “descrição” (história, identidade, objetivo e organização), porque não vale o mesmo para as outras experiências? Além de estarmos frente a uma descrição fria (quanto às Pastorais), nada disso aparece – quanto aos Movimentos e Comunidades, nem uma referência (por menor que fosse) ao carisma que deveria mover todos eles ou ao papel que as Congregações Religiosas tiveram com a Pastoral de Conjunto junto à juventude. O que o Documento diz refere-se à falta de “assessores” (um termo que é evitado no Documento, e também não aparece no Documento de Aparecida, apesar do capítulo bonito do Documento 85, da CNBB aprovado pela CNBB uns dias antes da Conferência Episcopal de Aparecida).
6. A “novidade” do momento – evidentemente - é o Setor Juventude. Falando de “Setor Juventude”, contudo, fala-se do Setor Diocesano, e não do Setor Nacional. Diz o Documento 103 (p. 63) : a proposta de Setor Juventude é para o âmbito diocesano. Para outros âmbitos, torna-se complicado e inviável manter relação constante com as inúmeras expressões juvenis. Poder-se-ia perguntar: “complicado e inviável”, por que?  Por que a necessidade de “relação constante”?. Assim como não se prevê o Setor Regional, até o Setor Nacional deixou de existir depois da criação da Comissão Episcopal para a Juventude (p. 58). Se o Setor se tornara uma instância de protagonismo juvenil, além de ter sido extinto, foi substituído pelo “protagonismo episcopal” (façam e pensem o que eu mando...). O “cuidado” foi substituído pelo “controle”. Não se tratou, somente, de uma mudança organizativa, mas teológica e pedagógica. Abraçou-se quem não pediu ajuda e abandonou-se quem não tem vergonha de confessar a necessidade de acompanhamento. Diz o Documento que a preocupação com a unidade, nas experiências de evangelização da juventude, é reconhecida quando fala dos Encontros Nacionais com Congregações Religiosas e Movimentos a partir de 1995 (p. 59) e também dos Cadernos de Estudo da Pastoral da Juventude, onde em 1991 se publicava o Caderno PJ e Movimentos. Se se reconhece o Dia Nacional da Juventude como uma atividade permanente e comum da CNBB, não são citadas a Semana da Cidadania nem a Semana do Estudante, também reconhecidas pela CNBB.
7. A episcopalidade da situação se comprova lendo o que é a Coordenação da Pastoral Juvenil Nacional, constituída pela Comissão Episcopal da Pastoral Juvenil e integrada por dez jovens, tendo como objetivo garantir em nível nacional, através do protagonismo juvenil e centralidade na figura de Jesus Cristo, a unidade das diversas expressões da Igreja Católica do Brasil que se empenham na evangelização da juventude. As perguntas que surgem são muitas porque, além de tudo, falta realismo, não se sabe o que é protagonismo, as juventudes, de fato não são respeitadas nem consideradas. Entre as 13 competências tem uma que diz representar as diversas juventudes do Brasil  (p. 67)...  Se há quatro Pastorais da Juventude, 15 Movimentos e 23 outras Comunidades (como diz o documento), estes dez jovens são eleitos por quem? Coordenam o quê? A representatividade respeita as realidades geográficas? Tem-se noção de quantos “grupos” pertencem a estas experiências?  Considerando as atividades/tarefas, com reuniões semestrais, como vão realizar o que vai descrito no Documento (p. 68)?
8. Outra instância descrita pelo Documento é a Equipe Jovem de Comunicação composta de jovens voluntários que tem como objetivo implantar e consolidar política de comunicação do Setor (!) como referência para o envio e recebimento de informações das ações juvenis (p. 70). Se uma das estratégias para esta Equipe está a organização e manutenção do arquivo histórico e da biblioteca do Setor (p. 70), o Setor continua existindo? Para cumprir estes objetivos bastam duas reuniões ao ano (p. 72)? Como se não bastasse isso, o capítulo 8 do Documento (o mais “regimental”, mais “maquinal”, mais “institucional”, mais “autoritário”)  fala dos responsáveis principais da evangelização da juventude. Ao lado de 12 “instâncias”, o Documento começa com os jovens (colocados aí numa ridícula e distorcida dinâmica do protagonismo juvenil!), os secretários jovens em nível nacional, os “evangelizadores adultos” (sic!), o bispo diocesano, o responsável diocesano, o pároco, o responsável paroquial, o bispo referencial regional, o assessor regional responsável, os assessores/responsáveis nacionais das experiências, os assessores da CEPJ e os bispos da CEPJ (p. 70 – 88), dizendo tudo que podem e não podem fazer.
O Documento finaliza com uma Conclusão falando da ação evangelizadora contínua, da necessidade de superar pessimismos porque há muitos grupos que seguem a Jesus Cristo, dos jovens que estão fora da Igreja, mas querem ser valorizados, dos jovens que são esquecidos, do espírito missionário falando da expressão de Bento 16 que fala de conversão pastoral, que devem ser aproveitado os areópagos juvenis da ação evangelizadora porque há muita fome do pão abençoado pelo Mestre (!) e algumas outras expressões piedosas. Sem querer faltar ao respeito, mas afirmar, mais uma vez, que os jovens não são respeitados, trata-se de um blablablá que se diz só para dizer, sabendo que nem os bispos e, muito menos, os jovens, vão ler (e, provavelmente, respeitar) o que aí está escrito.
Entre os três anexos, o mais estranho é o que fala da nomenclatura de seis conceitos: Evangelização da Juventude, Pastoral Juvenil, Pastorais da Juventude, Pastoral da Juventude do Brasil, Pastoral da Juventude e Setor Diocesano da Juventude. São definições sucintas, algumas questionáveis, falando de realidades que não existem mais por decreto (Pastoral da Juventude do Brasil), apresentando novas,  ideologicamente  intencionadas (Pastoral Juvenil). São conceitos que expressam um modelo de Igreja e de trabalho com a juventude. Se disséssemos que “Pastoral Juvenil”[7] (um conceito que no Brasil sempre se expressou como “Pastoral da Juventude”) é a ação organizada das juventudes sendo Igreja, não diríamos algo muito do que se lê na página 85? Se há necessidade de apresentar estas nomenclaturas, por que não mereceriam o mesmo cuidado os Movimentos, as Novas Comunidades  e as experiências nascidas de Congregações Religiosas?



[1] Estudos da CNBB, Edições CNBB, 2013.
[2] Veja-se, por exemplo, as citações das páginas 22, 31, 32, 35, 37, 39, 43, 78 etc. só para citar algumas.
[3] Veja-se p. 18.
[4] Veja-se p. 19.
[5] Veja p. 12.
[6][6] Cadernos de Estudos da Pastoral da Juventude Nacional, nº 5 – tão “considerado” que nem entra na bibliografia do Documento.
[7] Como diz e reconhece o Documento:  “toda a Pastoral Juvenil no Brasil era conhecida com o nome de Pastoral da Juventude” (p. 95), por que a mudança de nome? Um debate interessante é o uso “de” e “da” Juventude,  porque está em jogo, ou não,  o respeito ao protagonismo juvenil. Mas essa discussão não se faz e nem interessa.

2 comentários:

Alexandre Manzano disse...

Muito oportuno e necessário, o texto. Sinto que alguns setores da nossa Igreja ainda vivem de um profundo senso de que a pastoral da juventude, e toda e qualquer expressão que tenha uma metodologia de levar ao protagonismo do jovem, como do leigo em geral, deve ou ser aniquilado e anulado, algo que devia agradar os "partidários" do parado passado, ou tutelados, desmerecendo a história, a caminhada, e a inteligencia dos destinatários de um documento como o 103. Nunca apoiaram a PJ como pastoral orgânica que de fato é e sempre foi, porque incomoda, pois incomoda trabalhar com jovens críticos, que querem ser mais do que simples destinatários de ações, como se fossem incapazes de construir uma história como os 40 anos da PJ. Parabéns pelo texto, até que!

Alexandre Manzano disse...

Parado - substituir por papado, obrigado. (Escrito no teclado do celular, enquanto vou ao trabalho).