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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

PERGUNTINHAS AO BORAN

Muita gente conhece o P. Jorge Boran, assessor do Setor Juventude da CNBB nos anos 80, autor de livros muito lidos por jovens da Pastoral da Juventude, presente na articulação da Pastoral da Juventude da América Latina, fundador do Centro de Capacitação da Juventude, criador do CDL diferente em 80 dioceses do Brasil e muita outra coisa. Assim como em junho ele escreveu um texto criticando pessoas e instituições da Pastoral da Juventude, agora lança Será que a PJ desaparecerá no futuro próximo? Escrevi uma resposta ao texto de junho, mas só mandei para ele. Dessa vez vou ao público com algumas perguntinhas ao P. Jorge. Há coisas que não se podem calar.

1.      Em vez de ficar repetindo coisas que já disse muitas vezes sobre a Pastoral da Juventude e que todos nós sabemos e procuramos encarar com as forças e inteligências que temos, em vez de escrever esta ladainha de defeitos e juízos e preconceitos, o senhor não poderia ter escrito algo bonito sobre os 40 anos de Pastoral da Juventude que o senhor também viveu? Tomando um aspecto mais concreto, para começar:  por que o senhor fica louvando o documento 103 “com muita aceitação dos bispos” (como você diz) e não fala dos questionamentos episcopais que houve do mesmo documento lançado em Natal/RN? O documento 103 não substitui o documento 85; ele trai o documento 85. Você não sabe isso? Não seria mais interessante você escrever coisas novas e bonitas sobre o Documento 85 da CNBB – Evangelização da Juventude: Desafios e Perspectivas Pastorais ou sobre Civilização do Amor – Projeto e Missão do CELAM para animar os/as jovens, lideranças e assessores/as a lerem e estudarem estes dois documentos fundamentais para quem trabalha na evangelização da juventude? Por acaso o senhor esteve na elaboração deste documento (103) que só sabe falar da identidade das Pastorais da Juventude e nada das outras “expressões”? Aliás,  naquele Encontro de Revitalização do qual você cuidou da metodologia e falou do “Julgar”, quem dos que estiveram assessorando este encontro, participou efetivamente do processo latino-americano de encaminhamento dessa revitalização ou esteve ativo na elaboração de Civilização do Amor – Projeto e Missão? O senhor sabe, certamente, que o documento do CELAM (o falado) é o livro mais vendido pela editora da CNBB, e isso não é importante?  Os compradores seriam, por acaso, as “expressões” nas quais o senhor não vê nenhum defeito porque a culpa de tudo, da crise que vive a evangelização da juventude no Brasil, é a tal da Pastoral da Juventude  que alguns bispos chamam de “comunista”?

2.      O senhor está convencido da história que conta do surgimento do conceito Pastoral Juvenil, aqui no Brasil? Muito estranho ler isso de sua parte que esteve, por um bom tempo, frente à articulação da Pastoral da Juventude na América Latina. Por que, de repente, um Setor que respondia pela Pastoral da Juventude se torna outra coisa e se identifica com Pastoral Juvenil? Tratar-se-ia de alguma “concorrência”, como o senhor fala com imensa infelicidade, ou será que temos que negar que o conflito dos cenários de Igreja vai além de concorrências de dominação? Estamos no mundo da competição?  Você sabe o que pode significar o senhor falar, em vez de “assessor”, de “acompanhante” ou de “cuidante” e comparar esse ministério com o técnico do time de futebol? A comparação tem sentido, mas parece querer esquecer o coração de uma atividade que se coloca em outra geografia (fora do campo de futebol). Aliás, é muito triste ver o senhor afirmando (entre tantas outras “sabedorias”) que é estratégia da Pastoral da Juventude não ter assessor/a adulto/a, seja do clero seja do mundo dos religiosos, não sei para quê. O senhor sabe muito bem que foi a Pastoral da Juventude (e nenhuma outra “expressão”) que começou Cursos de Pós-Graduação em Juventude em várias partes do Brasil e da América Latina. Por que será que foram fechadas instituições como a Casa da Juventude (Bogotá), o ISPAJ (Santiago do Chile), o Instituto Pablo VI (Montevideo) e, mais perto do nosso nariz, o IPJ (de Porto Alegre) e a CAJU de Goiânia? Aliás, como você diz, os culpados de muita coisa são estes tais de pejoteiros antigos, não da juventude. Não é assim que o senhor fala? Por que o senhor não fala dessas e tantas outras iniciativas que tomam a peito a formação de adultos que trabalhem com os jovens, mas diz que é estratégia da Pastoral da Juventude não formar assessores/as?

3.      Outra perguntinha: quem está “medindo forças” na evangelização da juventude no Brasil? O autoritarismo descarado e o desrespeito ao protagonismo juvenil estão do lado de quem? Há censuras e criminalizações por parte de quem? Ou não há lados? Quem são estas “algumas pessoas” em conflito com a Comissão Episcopal de Pastoral e com o Setor, das quais o senhor fala? É maniqueísta um agente de Pastoral preocupado com a situação dos grupos de jovens e pensar, por exemplo, – num arroubo de entusiasmo - num Concílio de Jovens? Se o senhor quer um “debate transparente e honesto”, como explica certas coisas que aconteceram na Jornada Mundial da Juventude e até dentro da Comissão Nacional de Pastoral Juvenil? Quem não quer dialogar? Por que o Papa  precisa ajudar a pagar as dívidas de um Bote Fé ou por que há padres midiáticos pedindo esmolas pelos MCS para os gastos da Jornada e de tantas outras coisas que se fizeram, mesmo na construção do Campus Fidei na periferia do Rio de Janeiro? A culpa é da Pastoral da Juventude? O senhor viu aquela publicação luxuosa sobre o Bote Fé na editora da CNBB? Quem paga estas excentricidades para não ajudar e não ter dinheiro para os participantes da “expressão” mais numerosa em grupo de jovens do Brasil que não tem nem Congregações nem tios ricos que pagam tudo para seus cursos, encontros e assembleias? Como é poético você afirmar que a Pastoral da Juventude só vive de eventos ou que só participam da Pastoral para “fazer de conta”... Será que não aprenderam isso do senhor?

4.      Claro, muita coisa (segundo sua “sabedoria”) nasceu em Los Teques. Acaso você esteve lá para saber o que aconteceu ou só sabe ouvir uma versão que resguarda sua aprovação? Você viu a delegação brasileira daquele Congresso? Havia dois lados: os que sabiam por que estavam lá e os que foram para comer moscas e ser defendido pelos seus “padrinhos”. Aliás, a questão da vivência pluralista, segundo sua sabedoria, parece ter problemas somente na Pastoral da Juventude. Evidente que as outras “expressões” são essencialmente ecumênicas, vivendo à risca tudo que se encontra no documento 85 e em Civilização do Amor – Projeto e Missão... Os que não querem estudar nem ser igreja é esse “pessoalzinho” asqueroso da Pastoral da Juventude. Se você, contudo, pergunta as funcionárias mais antigas da CNBB como está o trabalho com os jovens elas logo vão dizer ao senhor: Ai que diferença! Basta o senhor olhar os carrões com que entram aqui os tais de conectados. Aconselhe-os, por favor, a disfarçarem melhor.

5.      Outro aspecto interessante de suas reflexões refere-se ao aspecto do envolvimento das “expressões” que trabalham com a evangelização da juventude na política. Quem chama a atenção do espiritualismo, do politicismo e do psicologismo no trabalho com a juventude é o documento 85, não nosso Papa Francisco. O que é preocupante é que o senhor parece ter preocupação para que as “expressões” não sejam “políticas” demais. Como seria bom ouvir do senhor falar de “profecia”, da mística que se expressa no Ofício Divino da Juventude; como é bom ter institutos que estudem juventude; que haja clero e religiosos/as com mais cheiro de povo e com menos badulaques nas vestimentas e liturgias; ouvir o senhor da manipulação que pode haver no campo da evangelização da juventude; do desrespeito que vige na sociedade e nas igrejas; ouvir o senhor falar da doença da aparência e da fé na hegemonia dos eventos e não no processo que é uma das bandeiras da Pastoral da Juventude. Estas coisas parecem não ser importantes para o senhor. Precisamos de muito mais coisas do que as cinco que você enumera no final de suas reflexões. Até há pessoas que acham que o senhor deve voltar ao seu amor primeiro, à juventude.

6.      Para concluir: porque num contexto de celebração de 40 anos da Pastoral da Juventude, você, no final de suas “sabedorias” põe afirmações de Bento XVI renunciando ao cargo do Papado? É por que ele diz que Deus não vai deixar naufragar o barco ou por que precisamos fazer as malas e retirar-nos nalgum canto da história moribunda e dizer que a história acabou? Padre Jorge, o que gostaríamos é que o senhor viesse aos festejos dos 40 anos e dançasse conosco a presença de todos os lampejos do Reino que a Pastoral da Juventude já viveu. No meio das danças aparecerão luzes alimentadas da esperança.

P. Hilário Dick S.J.

16 de janeiro de 2014

5 comentários:

Marciel Rocha disse...

Não compreendo por que tanta raiva do artigo do padre Jorge Boran. Desqualificá-lo e colocar "palavras que ele não escreveu" também não ajuda a debater as ideias propostas por ele.

José disse...

Nem raiva, nem desqualificação. Apenas questionamentos a alguém que podendo fazer muito mais com sua altíssima qualificação, não o fez. Tudo o que foi colocado pelo pe. Hilário encontra respaldo no texto do pe. Jorge Boran. Sinto muito por este ter escolhido aquele olhar com tantos outros possíveis. A Roberta Agustinho tem razão quando diz que ele não falou com nenhum/a jovem ou assessor da PJ. Talvez tenha se restringido ao alto de sua condição de assessor do setor juventude para escrever, desconsiderando a vida vivida. Isso o coloca em contradição já que em muitos momentos diz que o setor juventude não pretende alterar a identidade da PJ. Veja, até para este pequeno texto ousou desconsiderá-la. Rafael Bernardi.

Gelinton Batista disse...

Marciel Rocha eu compreendo as razões de tanta raiva ao artigo do padre Boran. Primeiro pq ele fala muitas verdades,segundo pq toca num ponto fundamental para explicar a crise da PJ: incoerência.

Queremos que a Igreja instituição mude, não seja tão fiel às suas tradições, mas rechaçamos quem dentro da PJ propõe algo novo. No ápice da crise o que fizemos não foi ler a realidade, mas sim reforçar nossas tradições e, assim, em algumas situações aprofundar o distanciamento dos jovens.

José e Roberta Augustinho, não os conheço nem sei o q fazem na PJ, mas não tenho dúvidas de que o que Boran descreve representa a realidade das bases. É preciso ser muito jovem para escrever o q ele escreveu.

Tenho imenso carinho pelo padre Hilário, mas penso que muitas de suas perguntas ao Boran fogem do tema. Parece-me que estão mais na esfera pessoal do que baseada no gigantesco conhecimento que ele possui sobre juventude. Vamos falar da crise da PJ. O Boran sugere um itinerário: ao invés de ficar culpando os outros, vamos olhar para dentro nós mesmos enquanto organização. Há tempos criticamos os outros e não temos obtido êxito. Talvez a resposta esteja em nossa própria identidade, como padre Hilário escreveu brilhantemente em seu recente livro "Minimo do minimo".

Cris disse...

Caro Dick, o admiro enquanto intelectual, mas acho que esse texto está fundamentado em ressentimentos e me parece muito emotivo.
Tbm tenho questões para o senhor, como o senhor tem se aproximado efetivamente desses jovens que são objeto de seus estudos? Dos jovens da PJ? Como o senhor tem contribuído efetivamente com as bases da PJ?

Filipe Vieira disse...

Qual é a vantagem de iniciar um novo ano com tantas armas em punho ?
Porque não tentar construir, invés de destruir?
"O caminho se faz caminhando" e não lutando entre si.
Fico triste de ver tanta energia sendo gasta com algo que não agrega em nada.