Jovens não são protagonistas das ações de redução da violência
(11/08/2009 São Paulo – Adital)
Os jovens dos bairros mais vulneráveis da cidade de São Paulo (SP) não são protagonistas das ações sociais de combate e redução da violência em sua comunidade. Esta foi a constatação da tese de doutorado intitulada ‘Juventude, Violência e Ação Coletiva’, de autoria da Dra. Fátima Madalena de Campos Lico.
A construção da tese da psicóloga durou cerca de quatro anos para ser finalizada (2005-2009) e teve como foco o jovem e a violência nas duas regiões de São Paulo que possuem o maior número de óbitos por homicídios entre jovens.
"Meu objetivo foi analisar e comparar os processos que orientam as ações coletivas e as experiências participativas de promoção da saúde dos jovens, realizadas pelas organizações governamentais e não-governamentais para o enfrentamento e resistência à violência, nos Distritos Administrativos do Grajaú e Jardim Ângela. A idéia era contribuir para a construção de uma cultura de paz e implementação de políticas públicas para a juventude local", afirma Fátima.
Por serem áreas com altos índices de violência, o Grajaú e Jardim Ângela receberam inúmeras iniciativas do poder público, de organizações não-governamentais e organizações religiosas, ligadas à Igreja Católica, com o intuito de deter os homicídios, modificar a realidade social dos jovens que ali residiam e implantar uma cultura de paz. As atividades oferecidas envolviam as áreas de educação, saúde, cultura, meio ambiente, esporte e lazer.
Mesmo com uma gama de projetos sendo oferecida à comunidade, grande parcela da população, sobretudo os jovens, ficava fora e não era atingida de nenhuma maneira. A tese apontou que os jovens que abandonavam a escola nem chegavam a ser alcançados pelas ações promovidas, tanto pela esfera pública quanto pelas entidades assistenciais e não-governamentais.
Além disso, a maioria dos projetos visava apenas atender as necessidades básicas dos jovens e tirá-los da ociosidade. Assim, não existia um envolvimento dos jovens no sentido de modificar a realidade em que vivem, e nem o protagonismo juvenil era estimulado.
Por meio de entrevistas individuais, formulários, questionários e levantamentos de dados, Fátima pôde coletar informações junto aos atores sociais (jovens, pais, lideranças, profissionais de saúde, educadores e gestores) e compreender as condições de vida e os principais problemas que afetam os jovens da região e quais as propostas para solucioná-los.
Problemas
Falta de infra-estrutura, de áreas de lazer e culturais, consumo de álcool e drogas, tráfico de drogas e transporte, ausência do poder público, moradia e urbanização precárias, insegurança, falta de cuidado com o meio-ambiente e exclusão social foram os principais problemas mapeados nas duas regiões.
"Mesmo com a grande quantidade de problemas apontados pelos jovens, principalmente o uso de drogas, o álcool e a violência, a maioria deles afirmou gostar do lugar onde moram, ter amigos e o considerar tranquilo", explica a psicóloga.
É visível que os jovens entram em contradição quando colocam a violência como um dos principais problemas e definem seu bairro como tranquilo. Mesmo com o apego à comunidade, a tese mostra que os jovens não estão envolvidos com o território no sentido de atuar sobre sua realidade para transformá-la.
Resultados
Ao final da pesquisa foi possível constatar que os projetos implantados nas comunidades surtiram efeito na redução na violência, seguida por uma diminuição em toda a cidade de São Paulo. No Jardim Ângela, por conta das ações integradas de políticas públicas terem sido implantadas há mais tempo, foi visível uma redução superior em comparação ao Grajaú. Mesmo com a queda nos índices de violência, os bairros continuam sendo os mais violentos da capital paulista.
"Ao iniciar essa pesquisa meu objetivo foi contribuir para que os jovens pudessem ser ouvidos. É necessário levar em consideração os projetos e propostas dos jovens, além de fortalecê-los como sujeitos sociais", finaliza Fátima.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Jovens não são protagonistas das ações de redução da violência
segunda-feira, 13 de julho de 2009
PADRE GISLEY DE AZEVEDO GOMES
PADRE GISLEY DE AZEVEDO GOMES,
TRINTA DIAS DEPOIS
EM DOIS TEMPOS
Hilário Dick
1º tempo
Reunidos, Carmem - com suas idéias sempre cheias - e eu, resolvemos convidar Gisley para visitar Morrinhos, a terra dele. E ele aceitou. Marcamos um encontro perto de uma passarela, na BR 353, em Goiânia. Fui, no dia, com o “gol” do Geraldo, perto daquela passarela combinada, mas ele não estava lá. Carmem esperaria no viaduto, mas não encontrei o viaduto. Fiz voltas e mais voltas, perguntando gente que sabia e não sabia. Por fim, cheguei ao local onde Carmem não estava, mas podia ver-me passando... Qual não foi minha surpresa (se é que isso existe) quando Gisley estava, com Carmem, esperando do outro lado da avenida.
- Que sacanagem... Mas, bom dia...
- Então vamos?
Carmem na frente e Gisley, atrás, no meio de nós.
- Estou curioso como está meu antigo corpo... disse Gisley.
- Custou muito sair do paraíso?
- Não. Mas me disseram não demorar muito porque vai ter festa no céu por todos os que deram a vida pela juventude.
E lá fomos nós na estrada que leva a São Paulo, passando em Morrinhos.
- E eu agüentar aqui os 120 km, como “caroneiro” de quem não sabe a estrada?
- Combinação é combinação! disse Carmem. “E trate de invocar seus anjos porque com o Hilário no guidão, o mundo corre riscos inesperados...”
Fomos pela estrada, com Gisley no meio de nós, espiando e reclamando porque não tinha som no carro.
- Avisou a mãe? Avisou os padres?
- Sim, disse Carmem, vamos almoçar na casa de sua mãe.
E lá fomos nós, rumo a Morrinhos, com Gisley falando dos planos que tinha e do que tinha ouvido sobre ele no paraíso. Ele falava e falava, e ria daquele jeito dele. A certa altura, disse:
- Posso dormir? Não estou mais acostumado a esta mudança de espaço. Onde estou, tudo é tão mais leve. Posso?
Com Gisley no meio de nós, dormindo, Carmem e eu nos olhamos e fomos vencendo os 120 quilômetros.
- Acho que é ali! disse Carmem. “Oi Gisley! acorda. Estamos chegando...”
- Bonita sua terra, disse eu.
- Mais bonita de quando eu jogava bolinha de gude nestes planaltos que viram esta beleza aqui crescer, disse nosso companheiro do meio, convencidinho como era.
Entrando na cidade, o que buscamos primeiro foi a residência dos companheiros de congregação. Ah! Esqueci-me de dizer que só Carmem e eu víamos o Gisley. Para os outros era invisível, porque ele havia decidido que assim seria melhor. No fundo, ele queria contemplar as pessoas amadas, mas sem atrapalhar os sentimentos verdadeiros delas.
Bem acolhidos, quem devia dar um jeito na chave daquela “capelinha funerária” onde haviam enterrado Gisley, era Adriano. Mas busca dali e de lá, a chave esta com uma senhora que foi trabalhar em Itumbiara.
- Vamos assim mesmo... disse Gisley para nós.
Adriano parecia ter ouvido uma voz e perguntou:
- O quê?
- Nada, nada... disse Carmem, disfarçando e olhando de lado para Gisley, invisível no meio de nós.
- Está bem. Levo vocês...
E lá fomos nós para o lugar em que estava o túmulo de Gisley. Ele deu a mão para Carmem, e fomos até onde se erguia, fechada, a “capela mortuária”. Lá, tanto eu como Gisley, ficamos diante da fresta da porta querendo enxergar, mas não vimos nada.
- Chiii, me esqueci! disse ele. Vocês não se lembram que eu lhes disse no caminho que eu estava lá, mas não estava?
Mas fiquei olhando, apesar disso, para a fresta que não mostrava nada. Rezei fundo, mas rápido. Depois daquelas rezas que não tem tempo, o Adriano falou:
- Agora levo vocês na casa da mãe. Venham atrás...
E fomos. Era no outro bairro. Gisley, no meio de nós, recordava tudo.
- Que susto que a família levaria se não estivesse invisível, dizia ele, rindo, no meio de nós.
A mãe, as irmãs, o cunhado, as sobrinhas todos estavam lá e só viam a nós, mas não a ele. Gisley estava no coração sofrido de todos eles e ele olhava o tamanho da dor de cada um. Enquanto, durante horas, olhávamos fotos, recordávamos, almoçávamos, misturando risos e lágrimas, o invisível ia e vinha pela casa, olhando tudo, principalmente a esperança que via nascer no coração da família. Quando íamos embora, havíamos falado da celebração que haveria na Casa da Juventude, de noite, mas ninguém quis ir conosco e lá voltamos nós.
- Que vontade doida de me mostrar para eles! disse Gisley. Mas tenho quase certeza que, ou teriam um ataque, ou não poderiam crer porque esta coisa de “outra vida” é falada de modo tão complicado quando, na verdade, a flor da esperança já está bem forte, até naquela sobrinha da qual sou padrinho...
Estando na estrada, ele, no meio de nós, de repente falou:
- Como cansam estas coisas do coração! Posso descansar?
E fomos voltando. Já perto de Goiânia, Gisley acordou.
- Olha, acho que vou voltar. Não vou ficar para a celebração. Andei lendo, contudo, nos corações das pessoas que a mãe, a irmã, as sobrinhas, o pai, os irmãos vão aparecer por lá, mesmo que não tenham dito nada. Gostaram da visita de vocês e a esperança da vida deu um pulo grande. Rezem a vida...
- Às 08h30min na CAJU, viu?
- Estarei lá.
E Gisley, de repente, não estava mais no meio de nós. As tarefas do paraíso o chamavam. Havíamos combinado que, uma semana depois, ele iria comigo (conosco) para Brasília. A celebração da noite foi linda, linda. Como o invisível gostava, não faltou incenso e muito sentimento.
2º tempo
Era sábado de manhã. Gisley combinara viajar comigo e com quem fosse com a gente, sem ser visto. Quando cheguei à CAJU, lá estava ele com aquelas vestes charmosas das quais gostava. Foi fazendo-me um gesto de silêncio e sentou-se no meio do acento traseiro, esperando que Édina, Jaciara e Regina embarcassem.
- Você não disse que o Gisley iria conosco?
- No coração de cada um de nós, respondi, piscando para Gisley no meio de nós.
Viagem tranqüila, com Regina abusando de meus erros de motorista, mas fomos.
- Uma peregrinação, não é Jaciara?
- Sim, com um companheiro que está e não vemos...
Gisley e eu nos olhávamos pelo espelho. Mais adiante o peso do espaço fez nosso companheiro invisível dormir apesar das sabedorias que Jaciara calava, que Édina ria e que Regina cantava.
Quando paramos num restaurante, na estrada, Gisley também saiu, esticando o espírito. Não gostou que eu fumasse... Voltando ao carro, não é que Édina tropeça no Gisley?
- Que é isso? disse Jaciara.
- Parecia ter gente... disse Édina.
- Chiii... parece Gisley tropicando por coisas simples, disse Regina.
E assim chegamos em Taguatinga, depois de pequenos erros. Esperava-nos a comida feita por Cláudia, Wagner e Luciene. Eder e muita gente estavam aí em espírito. Impossível saber o nome de todos eles. Gisley, ao sair do carro, olhava mais firme, não sei por quê. Ninguém o via, mas ele estava no espírito de todos. Conhecia bem aquele apartamento de amigos/as e foi na varanda contemplar a cidade que esconde, também, pessoas traiçoeiras. Olhava e perdoava. De minha parte, abraçando as pessoas parecia estar abraçando também Gisley que olhava no coração de todos e todas. Era o local da reza do Ofício Divino da Juventude, das confidências e das risadas que a vida merece.
Pelas 16h00min horas começou a parte mais dorida de nossa peregrinação. Gisley puxou-me para o lado e sussurrou:
- Estive lá antes da cruz... Não se importa se fico triste, né? É que no paraíso as tristezas são, também, alegria. Posso?
Não pude dizer nada porque os mistérios são mistérios. E lá fomos nós, buscando a tal de Brazlândia. Nossos corações peregrinos acharam a estrada comprida, perigosa e sagrada. A certa altura desviamos pra direita, numa subida de morro. Gisley parecia recordar coisas... e olhava para mim que nem sempre tenho coração de compreender. Wagner, que ia na frente, encostou o carro e nossos corações viram: uma cruz branca, com o nome de Gisley de Azevedo Gomes. Percebi que Gisley não queria descer...
- Sim! disse ele. Aqui me deixaram...
Com a devoção que encontramos em nós, todos descemos, olhamos, tocamos a cruz, olhamos o capinzal derrubado, vimos luvas abandonadas, tudo silêncio. Minutos que desenhavam uma eternidade. Aquela paisagem não é mais a mesma depois daquele dia... Gisley ficava olhando nossos sentimentos.
- Acho que os sentimentos vão mostrar-se na vida que vamos viver depois de ver estas coisas, disse Luciene.
- Que tal a idéia de construirmos, aqui, uma pequena capela? falava Wagner carregado de vontade de ver as coisas brotando a partir do sangue de Gisley que não mais se via.
- Por que não celebrar aqui o Dia Nacional da Juventude? dizia Édina.
Fiquei mudo, com raiva do local escolhido para Gisley por uma sociedade que não ama a juventude. Lugar maldito, mas que pode virar um lugar sagrado... Depende de quem?
Gisley estava olhando como a pedir para a Regina e a Jaciara que cantassem uma coisa de juventude e esperança, e nós choramos. Todos, sem saber por que... Melhor, com a paisagem inteira sabendo que só chorávamos a ausência de um amigo que, sem saber, estava no meio de nós.
Quando voltamos ao carro, Gisley já tinha partido porque o coral da esperança e da vida o esperava, no paraíso da vida. Já era tarde e o invisível não estava mais. Melhor: ele estava mais fundo de todos nós.
No “Lual” que o grupo de amigos inventou naquela noite, tudo, até as estrelas, só falavam desse amigo da juventude e de todos que se querem bem em cantos, poesias e recordações. Ali estavam miríades de amizades amando a vida através de uma aparente ausência.
TRINTA DIAS DEPOIS
EM DOIS TEMPOS
Hilário Dick
1º tempo
Reunidos, Carmem - com suas idéias sempre cheias - e eu, resolvemos convidar Gisley para visitar Morrinhos, a terra dele. E ele aceitou. Marcamos um encontro perto de uma passarela, na BR 353, em Goiânia. Fui, no dia, com o “gol” do Geraldo, perto daquela passarela combinada, mas ele não estava lá. Carmem esperaria no viaduto, mas não encontrei o viaduto. Fiz voltas e mais voltas, perguntando gente que sabia e não sabia. Por fim, cheguei ao local onde Carmem não estava, mas podia ver-me passando... Qual não foi minha surpresa (se é que isso existe) quando Gisley estava, com Carmem, esperando do outro lado da avenida.
- Que sacanagem... Mas, bom dia...
- Então vamos?
Carmem na frente e Gisley, atrás, no meio de nós.
- Estou curioso como está meu antigo corpo... disse Gisley.
- Custou muito sair do paraíso?
- Não. Mas me disseram não demorar muito porque vai ter festa no céu por todos os que deram a vida pela juventude.
E lá fomos nós na estrada que leva a São Paulo, passando em Morrinhos.
- E eu agüentar aqui os 120 km, como “caroneiro” de quem não sabe a estrada?
- Combinação é combinação! disse Carmem. “E trate de invocar seus anjos porque com o Hilário no guidão, o mundo corre riscos inesperados...”
Fomos pela estrada, com Gisley no meio de nós, espiando e reclamando porque não tinha som no carro.
- Avisou a mãe? Avisou os padres?
- Sim, disse Carmem, vamos almoçar na casa de sua mãe.
E lá fomos nós, rumo a Morrinhos, com Gisley falando dos planos que tinha e do que tinha ouvido sobre ele no paraíso. Ele falava e falava, e ria daquele jeito dele. A certa altura, disse:
- Posso dormir? Não estou mais acostumado a esta mudança de espaço. Onde estou, tudo é tão mais leve. Posso?
Com Gisley no meio de nós, dormindo, Carmem e eu nos olhamos e fomos vencendo os 120 quilômetros.
- Acho que é ali! disse Carmem. “Oi Gisley! acorda. Estamos chegando...”
- Bonita sua terra, disse eu.
- Mais bonita de quando eu jogava bolinha de gude nestes planaltos que viram esta beleza aqui crescer, disse nosso companheiro do meio, convencidinho como era.
Entrando na cidade, o que buscamos primeiro foi a residência dos companheiros de congregação. Ah! Esqueci-me de dizer que só Carmem e eu víamos o Gisley. Para os outros era invisível, porque ele havia decidido que assim seria melhor. No fundo, ele queria contemplar as pessoas amadas, mas sem atrapalhar os sentimentos verdadeiros delas.
Bem acolhidos, quem devia dar um jeito na chave daquela “capelinha funerária” onde haviam enterrado Gisley, era Adriano. Mas busca dali e de lá, a chave esta com uma senhora que foi trabalhar em Itumbiara.
- Vamos assim mesmo... disse Gisley para nós.
Adriano parecia ter ouvido uma voz e perguntou:
- O quê?
- Nada, nada... disse Carmem, disfarçando e olhando de lado para Gisley, invisível no meio de nós.
- Está bem. Levo vocês...
E lá fomos nós para o lugar em que estava o túmulo de Gisley. Ele deu a mão para Carmem, e fomos até onde se erguia, fechada, a “capela mortuária”. Lá, tanto eu como Gisley, ficamos diante da fresta da porta querendo enxergar, mas não vimos nada.
- Chiii, me esqueci! disse ele. Vocês não se lembram que eu lhes disse no caminho que eu estava lá, mas não estava?
Mas fiquei olhando, apesar disso, para a fresta que não mostrava nada. Rezei fundo, mas rápido. Depois daquelas rezas que não tem tempo, o Adriano falou:
- Agora levo vocês na casa da mãe. Venham atrás...
E fomos. Era no outro bairro. Gisley, no meio de nós, recordava tudo.
- Que susto que a família levaria se não estivesse invisível, dizia ele, rindo, no meio de nós.
A mãe, as irmãs, o cunhado, as sobrinhas todos estavam lá e só viam a nós, mas não a ele. Gisley estava no coração sofrido de todos eles e ele olhava o tamanho da dor de cada um. Enquanto, durante horas, olhávamos fotos, recordávamos, almoçávamos, misturando risos e lágrimas, o invisível ia e vinha pela casa, olhando tudo, principalmente a esperança que via nascer no coração da família. Quando íamos embora, havíamos falado da celebração que haveria na Casa da Juventude, de noite, mas ninguém quis ir conosco e lá voltamos nós.
- Que vontade doida de me mostrar para eles! disse Gisley. Mas tenho quase certeza que, ou teriam um ataque, ou não poderiam crer porque esta coisa de “outra vida” é falada de modo tão complicado quando, na verdade, a flor da esperança já está bem forte, até naquela sobrinha da qual sou padrinho...
Estando na estrada, ele, no meio de nós, de repente falou:
- Como cansam estas coisas do coração! Posso descansar?
E fomos voltando. Já perto de Goiânia, Gisley acordou.
- Olha, acho que vou voltar. Não vou ficar para a celebração. Andei lendo, contudo, nos corações das pessoas que a mãe, a irmã, as sobrinhas, o pai, os irmãos vão aparecer por lá, mesmo que não tenham dito nada. Gostaram da visita de vocês e a esperança da vida deu um pulo grande. Rezem a vida...
- Às 08h30min na CAJU, viu?
- Estarei lá.
E Gisley, de repente, não estava mais no meio de nós. As tarefas do paraíso o chamavam. Havíamos combinado que, uma semana depois, ele iria comigo (conosco) para Brasília. A celebração da noite foi linda, linda. Como o invisível gostava, não faltou incenso e muito sentimento.
2º tempo
Era sábado de manhã. Gisley combinara viajar comigo e com quem fosse com a gente, sem ser visto. Quando cheguei à CAJU, lá estava ele com aquelas vestes charmosas das quais gostava. Foi fazendo-me um gesto de silêncio e sentou-se no meio do acento traseiro, esperando que Édina, Jaciara e Regina embarcassem.
- Você não disse que o Gisley iria conosco?
- No coração de cada um de nós, respondi, piscando para Gisley no meio de nós.
Viagem tranqüila, com Regina abusando de meus erros de motorista, mas fomos.
- Uma peregrinação, não é Jaciara?
- Sim, com um companheiro que está e não vemos...
Gisley e eu nos olhávamos pelo espelho. Mais adiante o peso do espaço fez nosso companheiro invisível dormir apesar das sabedorias que Jaciara calava, que Édina ria e que Regina cantava.
Quando paramos num restaurante, na estrada, Gisley também saiu, esticando o espírito. Não gostou que eu fumasse... Voltando ao carro, não é que Édina tropeça no Gisley?
- Que é isso? disse Jaciara.
- Parecia ter gente... disse Édina.
- Chiii... parece Gisley tropicando por coisas simples, disse Regina.
E assim chegamos em Taguatinga, depois de pequenos erros. Esperava-nos a comida feita por Cláudia, Wagner e Luciene. Eder e muita gente estavam aí em espírito. Impossível saber o nome de todos eles. Gisley, ao sair do carro, olhava mais firme, não sei por quê. Ninguém o via, mas ele estava no espírito de todos. Conhecia bem aquele apartamento de amigos/as e foi na varanda contemplar a cidade que esconde, também, pessoas traiçoeiras. Olhava e perdoava. De minha parte, abraçando as pessoas parecia estar abraçando também Gisley que olhava no coração de todos e todas. Era o local da reza do Ofício Divino da Juventude, das confidências e das risadas que a vida merece.
Pelas 16h00min horas começou a parte mais dorida de nossa peregrinação. Gisley puxou-me para o lado e sussurrou:
- Estive lá antes da cruz... Não se importa se fico triste, né? É que no paraíso as tristezas são, também, alegria. Posso?
Não pude dizer nada porque os mistérios são mistérios. E lá fomos nós, buscando a tal de Brazlândia. Nossos corações peregrinos acharam a estrada comprida, perigosa e sagrada. A certa altura desviamos pra direita, numa subida de morro. Gisley parecia recordar coisas... e olhava para mim que nem sempre tenho coração de compreender. Wagner, que ia na frente, encostou o carro e nossos corações viram: uma cruz branca, com o nome de Gisley de Azevedo Gomes. Percebi que Gisley não queria descer...
- Sim! disse ele. Aqui me deixaram...
Com a devoção que encontramos em nós, todos descemos, olhamos, tocamos a cruz, olhamos o capinzal derrubado, vimos luvas abandonadas, tudo silêncio. Minutos que desenhavam uma eternidade. Aquela paisagem não é mais a mesma depois daquele dia... Gisley ficava olhando nossos sentimentos.
- Acho que os sentimentos vão mostrar-se na vida que vamos viver depois de ver estas coisas, disse Luciene.
- Que tal a idéia de construirmos, aqui, uma pequena capela? falava Wagner carregado de vontade de ver as coisas brotando a partir do sangue de Gisley que não mais se via.
- Por que não celebrar aqui o Dia Nacional da Juventude? dizia Édina.
Fiquei mudo, com raiva do local escolhido para Gisley por uma sociedade que não ama a juventude. Lugar maldito, mas que pode virar um lugar sagrado... Depende de quem?
Gisley estava olhando como a pedir para a Regina e a Jaciara que cantassem uma coisa de juventude e esperança, e nós choramos. Todos, sem saber por que... Melhor, com a paisagem inteira sabendo que só chorávamos a ausência de um amigo que, sem saber, estava no meio de nós.
Quando voltamos ao carro, Gisley já tinha partido porque o coral da esperança e da vida o esperava, no paraíso da vida. Já era tarde e o invisível não estava mais. Melhor: ele estava mais fundo de todos nós.
No “Lual” que o grupo de amigos inventou naquela noite, tudo, até as estrelas, só falavam desse amigo da juventude e de todos que se querem bem em cantos, poesias e recordações. Ali estavam miríades de amizades amando a vida através de uma aparente ausência.
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